Acordei em um lugar familiar mas não sabia exatamente onde, era como um quarto com uma luz muito fraca deixando impossível de saber onde estavam as paredes, exceto pela que estava na minha frente, ela parecia estar perto e longe ao mesmo tempo e tudo que podia ver era um espelho. Comecei a ir em direção a ele e algo parecia estar diferente enquanto me aproximava, meu reflexo no espelho fazia alguns pequenos movimentos que eu não sentia ou não lembrava de ter feito, coisas como piscadas de olho e leves espasmos involuntários, mas estava bem escuro para ter certeza e podia apenas ser minha imaginação, porém quando mais perto chegava mais as coisas pareciam estranhas, meu rosto estava diferente, cheio de manchas e machucados, um olhar fixo e sem expressão por trás de fundas olheiras, minhas roupas eram trapos e estavam rasgadas e sujas, unhas tão grandes que pareciam se retorcer como troncos de árvores, comecei a me tocar em busca dessas características em mim mesmo, mas não encontrei nenhuma sem contar que meu reflexo não se mexeu, estiquei a mão para tocar o reflexo e antes que pudesse chegar a tocar a superfície do espelho, ele quebrou com um som alto, estilhaços voaram para todo lado e alguns me acertaram pelo corpo, mas imediatamente depois dos estilhaços veio uma mão com unhas gigantes do escuro, ela apertou forte meu braço que ainda estava estendido e senti a unha começar a me furar no antebraço, em um impulso puxei a mão de volta e as unhas fizeram longos cortes do meu antebraço até minha mão, cortes profundos, podia sentir o sangue escorrendo e a pele ardendo. O dono dessa mão apareceu logo em seguida fazia grunhidos e barulhos estranhos, estava em uma espécie de jaula, passava uma de suas mãos pelo pequeno buraco entre as barras e parecia se apertar cada vez mais contra elas como se quisesse alcançar algo do lado de fora, e ele queria. A mão sumiu na escuridão e logo voltou como se ele tivesse correndo contra as barras para tentar chegar mais longe, só ai vi seu rosto, era o mesmo que estava no reflexo do espelho, era eu mesmo, preso em uma jaula tentando agarrar qualquer coisa que se aproximasse, dei uns passos para trás e acabei tropeçando no meio do processo, continuava me vendo correr e bater com força nas barras da jaula enquanto tentava me afastar me arrastando pelo chão. Não estava entendendo o que acontecia ao meu redor e muito menos podia enxergar direito, sabia que o chão era frio e era como se fosse feito de pedras lisas, encostei em uma parede, fechei meus olhos tentando acordar daquele pesadelo, mas só conseguia sentir a dor no meu braço que ainda sangrava e estava começando a inchar, tentei apertar meu antebraço contra minhas pernas enquanto as abraçava e tentava pensar em algo, quando escutei uma voz do meu lado direito, era como se estivesse falando bem do lado do meu ouvido, era uma voz como a minha e ela falava coisas que não conseguia entender, ora do lado direito, ora do lado esquerdo mas nunca exatamente em lugar algum, apesar de estar perto ela parecia vir de longe e falava de uma forma tão estranha que parecia ser antiga. Logo saí dali ainda escutando a voz até estar distante, ou pelo menos achar que sim. Segui por algum lugar que parecia um corredor, era difícil enxergar direito pois só existia uma fonte de luz no ambiente, ela vinha do teto e parecia se mover junto comigo, mas era uma luz fraca e vinha de muito alto, encostei minha mão não machucada em uma das paredes para tentar me guiar, era fria como colocar a mão dentro de uma geladeira e era áspera como tijolos, segui por alguns metros quando senti algo puxando minha mão, era algo forte e me puxou por dentro de uma daquelas jaulas, vi uma outra versão de mim mesmo com uma máscara que parecia de porcelana mas estava rachada em vários pontos, ele segurava uma espécie de faca e queria me cortar com ela, levantou ela no ar e estava pronto para deixá-la cair com toda força, tentei me desvencilhar com toda minha força mas ele me segurava e não me deixava me mover, com minha outra mão tentar acertar ele e consegui de alguma forma acertar seu olho pelo buraco da máscara, ele gritou de dor e me soltou, sai correndo o mais rápido que consegui, ainda pelo corredor e agora com ambos os braços machucados, um com as marcas de arranhões e o outro dolorido de tentar me soltar do meu encontro mais recente. Continuei andando em direção a uma sala onde havia luz, essa sala era a única que conseguia enxergar algo, era uma espécie de biblioteca bem pequena com estantes em duas das paredes e uma pequena mesa no centro, estava muito bem arrumada e iluminada e na mesa tinha uma pessoa lendo algo, estava muito bem vestido e arrumado, logo percebeu minha presença ali e se virou para falar comigo, mas assim que o vi comecei a andar para trás, era uma outra versão minha, usava um terno impecável e tinha todo um ar de intelectual, tentava se aproximar de mim dizendo que poderia me ajudar, ele sorria e mostrava seus dentes tão amarelados que deveriam estar podres, eu tentava me afastar cada vez mais rápido, ele continuava avançando bem devagar como se soubesse que eu não tinha como fugir, começou a tirar peças de roupas enquanto chegava mais perto, tirou o paleto e quando levantou a blusa, pude ver seu corpo que não era nada do que poderia esperar de alguém, seu corpo mexia como se fossem vários insetos e logo eles começam a sair da formação que estavam, todos os tipos de insetos e bichos rastejantes e nojentos vinham atrás de mim, meu estômago se revirava, mas corri na direção oposta e só parei quando não ouvia mais nada, me deitei no chão e desabei, comecei a chorar. Ainda podia escutar todos eles, sabia que estavam todos ali e mesmo que não podia chagar até mim, eles estavam lá. Tentei fechar os olhos e acordar daquele pesadelo mais uma vez, mas seja lá o que era aquilo, certamente não era um pesadelo do qual podia acordar, não sei o porquê mas estava preso naquele lugar e nem sabia que lugar era esse, só sabia que estava com as piores versões de mim mesmo.
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