Casa 16


Em algumas semanas chegaram as férias e coincidentemente meu o aniversário também, "vou fazer 17 anos" era o que vinha pensando diariamente neste mês. Engraçado que vejo amigos e colegas de escola planejando grandes festas e comemorações para seus aniversários, além de um extenso roteiro de férias com direito a viagens, mais festas e coisas do tipo, eu também tenho grandes planos para as férias porém a maioria deles gira em torno de conseguir um emprego.

A questão é que a pouco menos de um mês havíamos nos mudado, eu e minha tia, a família inteira teve uma briga por uma herança de algum parente bem distante, acabou que uma só pessoa pegou a herança inteira e sumiu depois disso houveram rumores de que ela estava ligada com certas pessoas na família e de que tudo era um grande plano. E foi briga e mais briga, eu e minha tia resolvemos nos distanciar e começar de novo em outro lugar, ela acabava de receber uma proposta de emprego na cidade, então compramos uma casa bem humilde em um bairro bem simples e nos mudamos em poucas semanas depois, decidimos ir no meio da semana pois era mais barato e no dia que chegamos foi tanta correria para resolver problemas e assinar documentos que nem tivemos tempo de arrumar as bagagens. Já estava anoitecendo e estamos exaustos, ela simplesmente deitou no sofá e apagou. Eu consegui fazer um esforço e me alojei em um dos quartos do segundo andar, bem comum nem tão pequeno e nem tão grande, não tinha banheiro mas sim uma grande janela na qual dava pra ver a casa ao lado. Quando me aproximei para fechar a cortina me entreti um pouco com a vista, além do óbvio que já havia visto de longe agora também pude ver o contraste entre os jardins, o da nossa casa estava tudo morto, mexido e largado. Já o da casa ao lado estava bem cuidado, nada impecável mas ainda sim bonito e revigorante, consegui ver também o sol se pondo entre algumas pequenas montanhas ao longe.

Quando já estava me afastado antes de fechar por completo a cortina vi uma silhueta na janela ao lado, me aproximei novamente da janela para ver melhor, parecia ser uma mulher, ela usava um vestido cor de bege bem antigo e um véu cobrindo seu rosto, ela olhava pela janela sentada em uma cadeira, sentia que estava encarando muito tanto que ela se virou pra mim e imediatamente fechei as cortinas e fui me deitar.

No dia seguinte acordei com minha tia desesperada dizendo que estávamos atrasados, corremos para nos arrumar e saímos o quanto antes possível, só para chegar na escola e descobrir que ainda tínhamos por volta de UMA HORA E MEIA adiantados. Havíamos esquecido do fuso-horário mas fomos passar o tempo tomando café em uma padaria ali perto, o lugar era bem aconchegante e as pessoas muito receptivas e carinhosas, o que tirou muito da minha ansiedade e timidez.

Conversamos com o dono do lugar, um senhorzinho bem humorado e simpático chamado Julio, falamos sobre a cidade, o comércio e sobre como estávamos adiantados o que acabou rendendo boas risadas. Foi um momento bem especial para mim e acredito que para minha tia também, principalmente diante de toda situação que estamos passando. São momentos assim que me lembram de meus pais, eu e ela sempre tivemos uma relação muito boa, o que só melhorou depois que meus pais se foram e passamos a viver juntos. Ela tem um jeito leve de enxergar a vida e principalmente todos os problemas que encontrávamos pelo caminho. O tempo passou, nos despedimos do Julio e dos outros funcionários e quando íamos sair:

- Tomem cuidado! A cidade é bem calma, mas recentemente vem acontecendo desaparecimentos por aí. Julio nos avisou antes de sairmos.

Voltamos à escola, agora na hora certa. Seria o primeiro dia da minha tia como professora de português substituta, faltava pouco para o fim do semestre, mas se tudo desse certo ela poderia conseguir a vaga permanente no ano seguinte. Eu estava bem mais calmo depois do café na padaria e conhecer o Julio , então consegui aproveitar bem o primeiro dia na escola nova, além de todos terem sido bem receptivos. Ao final decidi dar uma volta pela cidade para conhecer os outros comércios e vizinhança, seria bom conversar com as pessoas e ver os lugares que poderiam precisar de uma ajuda a mais durante as férias. A cidade não era tão pequena mas estava longe de ser grande, tinha uma praça que todos chamavam de ponto central dali seguiam algumas ruas e residências, uns comércios e para algum lado ouvi dizer que tem um lago, tirando isso não consegui mais informações, uma senhorinha me disse que deveria trabalhar em um mercado ali perto, mas os donos não pareciam muito afim de contratar ninguém então resolvi voltar para casa, não era longe levou por volta de uns quinze minutos caminhando. Quando cheguei perto vi na casa ao lado a mesma mulher da noite anterior, estava sentada na mesma cadeira e quando notou que estava ali levantou com pressa tocou na janela e saiu, deixando uma marca de sangue na janela.

Fiquei ali parado um tempo sem entender, pensei em ir até lá, chamar a polícia mas só entrei em casa como se nada tivesse acontecido, minha tia ainda não havia chegado, mas tinha me avisado que poderia demorar na escola e por isso compramos comida congelada para essas situações. Enquanto a comida esquentava no micro-ondas fiquei pensando comigo se havia agido da melhor forma mais cedo, e ouvindo aquele tique resolvi ir até lá ver se estava tudo bem. Cheguei a porta da frente e apesar de ser uma porta simples, estava meio acabada e o número da casa estava pela metade, mostrando só o ”6”. Toquei a campainha ainda meio nervoso mas nada, nem uma voz. Toquei mais uma vez, e dessa vez veio uma voz lá do fundo, uma voz arranhada, fraca que parecia velha. Ela disse:

-Não posso ir agora! Estou ocupada.
-Sou o vizinho do lado. Só quero saber se está bem.

Fiquei esperando por uma resposta mas não recebi nenhuma, então voltei para casa, comi e fui me deitar. O dia seguinte foi bem parecido, saímos mais cedo para tomar café no Julio de novo, a escola foi normal porém depois da aula fui direto para casa, quando cheguei a senhora estava regando seu jardim e decidi me aproximar e ver se estava tudo bem. A primeira impressão foi um choque, esperava ver uma senhora de idade por volta dos 80 anos, mas ela aparentava ter minha idade ou um pouco a mais. Parecia ter um corpo jovem por debaixo do longo vestido preto que usava, ele cobria por completo seus braços e pernas até o fim do pescoço. Mas seu rosto estava amostra, e era lindo, o que mais chamava atenção eram seus olhos cor de mel.

-Oi! Eu queria parecer amigável mas saiu mais animado que esperava, tanto que ela pareceu assustada ao me ver.
-Ah, oi. Perdão nem tinha te percebido.

Aquela voz antiga e arranhada era dela, o que me parecia bem estranho.

-Sou Lucas. Cheguei a tão pouco tempo que nem tive oportunidade de me apresentar, sou o novo vizinho.
-Que bom. o último vizinho era um chato. Você tem um rosto bonito.
-Bem, obrigado. Você está bem? Ontem te vi pela janela e acho que vi um pouco de sangue.
-Ah, não se preocupe, aquilo foi só um acidente. Foi bom conversar com você mas preciso entrar agora, te vejo depois.

Antes de ir ela ficou alguns segundos me encarando, depois entrou em casa e se foi. Fiquei ali mais um tempo meio confuso e até meio hipnotizado.

Voltei para dentro e fui direto para a janela do quarto esperando vê-la de novo, esperei a noite inteira e só me dei conta quando já era de manhã, mesmo estando muito cansado tive que sair, mas talvez encontrasse ela na escola. Tentei procurá-la mas não encontrei, “talvez ela vá em outra escola” pensei comigo, esperando as horas na escola passarem entre vários cochilos inesperados. Mais uma vez, assim que pude sair fui direto para casa na esperança de encontrar a moça pela qual estive acordado a noite inteira, e lá estava ela.

Exatamente no mesmo lugar, regando rosas em seu jardim. Me aproximei e antes que pudesse dizer algo:

-O menino do rosto bonito voltou. Estive esperando por você o dia todo.
-Eu estava na escola, achei que poderia te encontrar lá.
-Não, meus tempos de escola acabaram, já tem tempo.

Ela disse sorrindo.

-Ontem você não me disse seu nome, como é?
-É difícil lembrar as vezes, mas tenho quase certeza que é Paula. Perdão, mas quando se tem minha idade algumas informações se perdem.
-Perdoe a pergunta Paula, mas quantos anos você tem?
-Ah, esta sempre é uma pergunta chocante, tenho 119 anos.
-COMO? 119 ANOS??

Eu simplesmente quebrei, não podia ser verdade como alguém tem 119 anos e estar daquele jeito, assustado dei a volta para olhá la nos olhos e seu rosto estava diferente, estava derretendo, como maquiagem formando espécies de rugas, a única coisa reconhecível eram os olhos cor de mel.

-E o que aconteceu com seu rosto?
-Oh isso. Perdão, mas é normal. Preciso entrar agora, amanhã apareça mais cedo.

Ela deu as costas e foi embora deixando um rastro com pegadas em sangue, eu ainda fiquei ali por alguns minutos no frio da noite, todas aquelas informações eram muito confusas e pareciam uma grande piada de mal gosto.

Fui para casa, não consegui comer e nem dormir. Fiquei sentado olhando pela janela, esperando um sinal de que era tudo uma pegadinha ou algo assim, mas nada.

No meio da madrugada, um sentimento de angústia, de incompletude, como se precisasse ir até lá e ver aquela pessoa novamente. E assim o fiz.

Cheguei até a porta da frente e bati já esperando não ser atendido, mas a porta abriu e eu entrei. O interior era bem comum, móveis e decorações antigas, a casa também tinha um cheiro de mofo, e um cheiro que não sabia dizer do que era mas parecia podre. Vi no chão aquelas mesmas pegadas de mais cedo e resolvi segui-las. Apesar de estarem secas, ainda eram bem visíveis no piso de madeira, elas seguiam pela casa inteira, na entrada e na pequena sala, na cozinha, banheiros e quartos, e em todos esses lugares tudo parecia ser bem normal. Faltava apenas um lugar para ir, as pegadas param na frente de uma porta de ferro, estava aberta e lá dentro tinha apenas um buraco e uma escada vertical para descer.

Engraçado que Lucas sempre acreditou no destino, e sempre dizia para si mesmo que o seu seria retribuir para sua tia e todos os que o ajudaram, ele queria dar uma vida melhor para eles. Mas no momento em que desceu aquela escada, seu destino era outro.

E a esse ponto ele nem pensava mais, estava seguindo sendo guiado, como uma mariposa indo na direção da luz mesmo, e mesmo sabendo que pode morrer, elas vão.

A escada era longa mas eventualmente ele chegou ao fundo, o cheiro agora era tudo o que existia ali, era uma sala grande e sem cor, pelo espaço estavam dispostas várias macas com corpos. Lucas se aproximou da maca mais próxima e viu uma mulher, no seu pé havia uma etiqueta de identificação “Paula, 22 anos”. Se ele estivesse pensando nesse momento ainda poderia ter se salvado, mas não o fez simplesmente continuou olhando até ver seu rosto, ou o que era pra ser o rosto, nada era reconhecível ali apenas os olhos castanhos e sem vida da mulher.

Depois de ver isso Lucas despertou e todas as peças se encaixaram em sua mente, agora ele sabia de tudo e poderia impedir de acontecer novamente, só precisava voltar para casa. Uma pena que seu destino já estava decidido.

Ao se virar deu de cara com sua nova vizinha, sua verdadeira vizinha, sem seus disfarces e vestidos para se esconder, o rosto dela era irreconhecível, uma mistura de carne, músculos, pele e ossos, mas aqueles olhos cor de mel não deixavam dúvidas.

No dia seguinte, a tia de Lucas não o encontrou em seu quarto, nem na escola e nem na padaria do Julio. Cartazes de desaparecido foram espalhados pela cidade inteira, mas se Lucas estivesse lá ele diria que os cartazes não ajudariam em nada, as pessoas precisavam de um aviso:

"Fique longe da casa 16".

Nohan Gustavo ©